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January 25 INSTABILIDADESão lenços perfumados de saudade
A enxugar essas lágrimas benditas
São meus olhos turvos a meia-idade
A enrugar as minhas mãos aflitas!
São flores a rolar pelo caminho
A se espalhar em cores irreais
É meu sonho a vagar sozinho
A se lançar em abismos ogivais!
Envolto de mistérios o meu sorriso,
Corro de encontro a tudo que preciso,
Ao muro estático que medra a inspiração!
Ao mesmo tempo em que falo (penso),
Desvairada nesse corredor imenso,
Impregnado de temor e solidão!
Vilma Oliveira
ESSA VOZ...
Essa voz que sai da alma minha
Percorre o céu, a terra e o mar revolto,
Não diz a ninguém se falo sozinha
Não diz se já parti e depois volto!
Essa voz se dilata cansada e triste
Surge não sei de onde em vendavais
Não diz a ninguém se tu existes...
Não diz a mim se vens ou se vais...
Essa voz que vibra alucinada,
Não ouve esse grito, quase nada...
Que falo sem pensar que sou ouvida!
Essa voz certamente mora em mim,
Vive a ocultar-se mesmo assim,
Na minh’alma alheia e enternecida!
Vilma Oliveira
November 21 HERÁLDICA FLOR
A noite se enlutou cansada e triste, A tiritar de febre na escuridão... Na sombra do vazio pediu em vão, As estrelas, se tu ainda existes!
No clarão dessa lua prateada, A se esconder por trás dos montes, Antes que o sol por lá desponte, Em raios dourados pela madrugada!
A convalescer a minha vertigem, Heráldica flor, a mais bela virgem, A deslumbrar-se no leito adormecida;
Nesse deleite fugaz pálido delírio, De eflúvios sutis, pétalas de lírios, A perfumar com a morte a minha vida!
Vilma Oliveira FUGA DOS DESEJOS
Quero viver até que os dias escoem Até que a morte sobrevenha enfim Até que os sentidos calem em mim Até que os meus pensamentos voem!
Quero amar até que os sonhos cessem, Até que essa última ilusão feneça... Até que o teu beijo me esqueça... Até que os meus desejos recomecem!
Quero pôr a máscara do adeus, Enquanto teus abraços forem meus, Enquanto teu amor for infinito!
Quero deleitar-me de saudades, Enquanto não partir pra eternidade, Enquanto fores meu: Puro e restrito! Vilma Oliveira June 10 FLOR DOS CÉUS
Oh, Flor dos céus! Oh, Flor cândida e pura!
Que enluta minha alma com esse adeus
Faz cair esse véu ocre e vil da amargura...
Sobre o naufrágio íngreme dos olhos meus!
Se de repente o sol se abrir em franjas
Em discreta adoração a flor girar...
Como um girassol se me abranja
O furor da alma tua em mim vibrar!
Sela o juramento que ao céu se agita,
A dourar nossas duas almas benditas,
Ganha-se a batalha ou perde-se a vida!
Onde estás a soluçar além de mim?
Se o nosso amor é mar que não tem fim...
Perde-se a batalha ou ganha-se outra vida!
Vilma Oliveira ESSE AMOR QUE MORRE
Como a me dizer uma voz pausadamente:
Enxuga esse teu pranto, não chore mais,
Esse amor já se foi, o teu sonho jaz...
Dentro doutros sonhos naturalmente!
Tu hás de encontrar em outra boca
Os beijos que de negar não viste
Os abraços quando tu partiste
Na desventura dessa fuga louca!
Há de nascer outra semente: A flor!
Botão de rosa a pincelar de cor,
A cobrir-te com pétalas nas manhãs;
Meu amor, tu haverás de compreender,
Que são precisos amores pra morrer,
Para que renasçam outras dores vãs!
Vilma Oliveira May 27 ENTRA NO MEU QUARTO
Entra o meu quarto, vês se existe, Dentro dele, um sonho, uma mulher,
Alguém que te venera, que te quer,
Cujo olhar, silencioso e triste!
Ao mundo, que me prometera,
Um amor supremo e eterno...
Deu-me Deus, só o amor materno,
Sem nenhuma flor, sem primaveras!
Quisera falar-te do que somos,
Desses rosais, primeiros pomos,
A sementeira desse amor...
Frutificou, cresceu dentro do âmago,
Reproduziu-se dúlcido afago,
Para depois morrer de tanta dor!
Vilma Oliveira ENSINA-ME A TE ESQUECER!
Nas refulgentes horas tão sombrias
Eu tropeçava nos astros descuidada
Sem me aperceber das horas vazias
Em que eras pra mim um quase nada!
Nas luzes das estrelas que me guia
O langor dos teus olhos apagados
A flor em botão pra mim sorria...
No desespero da alma do outro lado!
Ensina-me a te esquecer devagarzinho,
Meu amor, tu vais de ninho em ninho,
Nas asas dessas aves já cansadas;
Eu sou igual a todos os passarinhos,
Presa em folhas com espinhos,
A buscar-te em vão, desencantada!
Vilma Oliveira É ASSIM QUE EU TE AMO!
É assim que eu te amo: Embevecida!
Na augusta solidão dos meus desejos
No afã da longa espera, enlanguescida,
A iluminância cálida dos teus beijos!
É assim que eu te amo: Ávida loucura!
No desaguar das ondas frente ao mar
Espumas de ilusões são as venturas
O gozo divinal é o dom de amar!
O sonho dos meus sonhos desfalece,
O nosso lábio unido é a prece,
A veste sublime, manto crepuscular;
Vês! Quão bela fonte a jorrar nos céus,
Gotas cristalinas nesses olhos teus,
Em lágrimas, por não poder me amar!
Vilma Oliveira May 23 DESENCANTO DA ALMASe o desencanto da Alma se perdesse
Por entre os desenganos dessa vida
Eu não seria assim flor esquecida...
No jardim do céu quando morresse!
Se os canteiros da saudade minha
Crescessem garbosas suas ramagens
Não haveria em mim essas imagens...
Tão tristes quando estou sozinha!
Quando fito o firmamento azul-celeste,
São nuvens esparsas que me deste,
Nas minhas mãos vazias e estranhas;
Quem sabe desse amor que se perdeu,
São flocos de neves que o luar me deu,
Em rimas de esperanças nas montanhas!
Vilma Oliveira
DEUSA DOS MORTAIS
Quisera atropelar meus sonhos loucos
Consagrar-me deusa de todos os mortais!
Não te amar tanto! Ninguém! Nunca mais!
Eternizar desejos se não fossem poucos...
Ah! Se eu pudesse me olhar no espelho
Poder sorrir sem nenhuma amargura
Caminhar sozinha em noites escuras...
Ser vulcão em larvas meus lábios vermelhos!
Murmurar sussurros ébrios de amor,
Em canções suaves amenizar a dor,
Que seja outro Alguém em tudo diferente;
Nesse momento então hei de te esquecer!
Se já não és pra mim sequer alvorecer,
Esse crepúsculo triste, luar plangente!
Vilma Oliveira
DEIXEM VIR AS DORESe xDeixem que venham todas as dores! Em urna de bronze, esse estranho mal,
Poentes de nácar são como as flores
Em trêmulas hastes, dessa luz irreal!
Deixem que venham todos os sonhos!
Nos teus olhos de ouro, o meu solar,
Nos teus palácios, pobres e tristonhos,
Os meus brilhantes são contas a chorar!
Em fogueiras de cinzas, deito o fulgor,
Das horas divinais do nosso amor,
Nobres cortejos de gestos recolhidos;
Nesse Sacrário de Almas penitentes,
O encontro triste das paixões ardentes,
Alteia e doira o meu olhar perdido!
Vilma Oliveira
May 19 AS MINHAS MÃOSToma as minhas mãos nas tuas
As abençoa com amor paterno
Beija-as com amor eterno...
Guarda-as para ti: Puras e nuas!
Faça delas o teu maior abrigo
O porto mais cálido, mais seguro,
A lanterna que te conduz no escuro
O teu maior tesouro. Meu Amigo!
Se somos nessa vida navegantes,
Tu és meu Tudo, o Irmão, o Amante,
Nós somos a lenda dos ciganos;
O meu viver é cisterna profunda,
De águas turvas onde nunca afunda,
A mágoa eterna, meus desenganos!
Vilma Oliveira
ASAS DO VENTO
Se essa voz do vento murmurasse
Aos teus ouvidos, os meus desejos,
Na minha, a tua boca calasse...
Teus lábios, a me tocar com beijos!
Se o silêncio da noite despertasse
Os teus sonhos de luzes coloridas
Cada estrela do céu não se apagasse
Ao ver-me sem a Luz da tua Vida!
Nas asas do vento vou colher rosa,
Em nuvens pesadas, vaporosas,
Contidas pelo pranto que me invade,
A primavera saudosa de nós dois,
No arrebol da longa espera, no depois,
Vergel florido a recompor, saudades!
Vilma Oliveira
ÂNSIA REPRIMIDA Li nos teus olhos por todos esses anos
Que juntos estivemos tão longe e perto
Tu eras meu oásis, às vezes, só deserto,
Universo de areias nos meus desenganos!
Li nos teus olhos em doces devaneios
A erguer-se exausto imenso castelo...
Tu foste da inspiração o verso mais belo!
Um mar de saudades de dores e anseios...
Tu leste nos meus olhos tristes rasos d’água,
O pranto que inunda os sonhos da minh’Alma,
São vertentes a se perpetuar dentro de mim;
Se acaso me ouvires distante a chamar-te,
São juras contidas em mim por amar-te...
Se já não me escutas, por que sofro assim?
Vilma Oliveira
ANDORINHAS MORTASO meu sonho a evocar-se altivo e forte
Em coroas de ouro a palpitar delírios
Poentes de novembro doces martírios
Ao pó do esquecimento até a morte!
Nesse horizonte de bruma opalizado
Onde mergulho a alma lírica e pagã
Falenas entontecidas, flor da manhã,
Rosais celestes em canteiros sagrados!
Pus-me a fitar o efêmero, o nada,
Em ritmos fleumáticos, extasiada,
A miragem fugidia do meu jardim;
Mísero pungir dessa chaga aberta,
São andorinhas mortas, a vida incerta,
A esvair-se em sangue dentro de mim!
Vilma Oliveira
May 15 SONETO DOS PRADOS
Quando por esses prados florescentes
Ergueram-se punhos de invasores?
Enamorados de olhos refulgentes
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